O blog analisado pela AI - ponto 4

 


A força do “Não Me Canso Disto” não está numa escrita “literária” no sentido clássico; está na construção, ao longo dos anos, de uma voz muito reconhecível.

Análise por características:

1. A voz: conversa antes de literatura

A primeira característica da escrita da Anita é a oralidade.

Ela escreve como quem está a contar uma coisa a alguém conhecido. Há frases curtas, interrupções, apartes, perguntas, reticências e comentários entre parênteses. Veja-se o início de Cabeça... dura: a autora parte de uma situação absolutamente banal — bater novamente com a cabeça no carro — e começa imediatamente a conversar consigo própria, inventando explicações absurdas para o sucedido.

Isto produz uma sensação de proximidade. Não temos a impressão de estar perante uma autora que se sentou para “escrever um texto”. Temos a impressão de que ela começou a contar uma história.

E essa diferença é fundamental. A escrita não tenta parecer mais sofisticada do que é. A voz assume a sua espontaneidade.


2. O humor nasce da observação, não da piada

Outra característica muito forte é o humor. Mas não é um humor de punchline, de “vou contar uma anedota”. É um humor de circunstância. No texto da cabeçada, por exemplo, o acontecimento é ridículo por si só. A autora amplifica-o através das hipóteses que inventa: talvez tenha crescido, talvez a cabeça não goste de carros pretos, talvez o “galo” esteja a atrapalhar.

É uma técnica bastante eficaz: acontecimento banal → exagero → autoironia → graça.

E a autoironia é importante porque a narradora não se coloca acima da situação.Ela própria é o alvo da piada. Isso torna a voz simpática.


3. Há uma técnica recorrente: o pequeno acontecimento abre uma porta

Este é um dos elementos literariamente mais interessantes. Muitos textos começam com uma coisa e acabam por falar de outra.

Tucha — a boneca sem sapatos é um excelente exemplo. O ponto de partida é uma imagem de uma boneca. A partir daí, a narradora regressa à própria infância, recorda a boneca que recebeu, as roupas que lhe fazia e o facto de nunca ter conseguido fazer-lhe sapatos.

A estrutura é quase: objeto → memória → infância → identidade.

É uma espécie de associação livre controlada. E isso acontece muito no blogue.

Uma osga conduz a uma pequena história sobre a descoberta das osgas no Minho. Um passeio conduz à família. Uma fotografia conduz a uma memória. Uma conversa conduz a outra.

A autora parece escrever seguindo aquilo que o acontecimento lhe desperta.


4. O verdadeiro tema do blogue é o tempo

À primeira vista, diríamos que o blogue é sobre família.

Diria que é sobre o tempo através da família. Isto torna-se especialmente evidente quando olhamos para a quantidade de etiquetas relacionadas com idades: 1 ano, 2 anos, 3 anos... 20, 21, 22, 23, 24, 25, etc., além de anos escolares e diferentes fases da vida. Transforma involuntariamente o blogue numa espécie de cronologia literária.

Os filhos crescem. As situações mudam. Os assuntos mudam. A própria narradora muda. E o blogue fica. É quase como se Anita estivesse a tentar fazer uma coisa impossível: parar o tempo através da escrita.


5. Os filhos funcionam como personagens, mas também como marcadores temporais

Há uma coisa muito curiosa na maneira como os filhos aparecem. Eles não são simplesmente “personagens” das histórias. Eles ajudam a marcar diferentes épocas da narradora.

Quando são pequenos, aparecem desenhos animados, escola, brincadeiras, passeios, pequenas aventuras. Num texto sobre desenhos animados, por exemplo, a narradora confessa que gosta tanto dos desenhos como os próprios filhos e que eles já perceberam isso.

Mais tarde, o universo muda. E isto produz uma espécie de romance familiar fragmentado, embora nunca tenha sido escrito como romance.

Cada publicação é um pequeno capítulo.


6. A fotografia tem uma função literária

No blogue mais recente aparecem títulos como “Junho em Fotografias”, “Maio em fotografias”, “Março em Fotografias”, além de vários textos muito curtos ligados a imagens. Isto é interessante porque fotografia e escrita desempenham funções diferentes.

A fotografia diz: “isto aconteceu.”

A legenda/texto acrescenta: “foi assim que eu o vi.”

Portanto, a fotografia funciona como prova da memória, enquanto a escrita fornece a interpretação emocional.


7. A linguagem é deliberadamente simples — e isso é uma virtude

Há, naturalmente, imperfeições gramaticais, repetições, frases menos trabalhadas e alguma irregularidade. Mas teria cuidado em considerar isso simplesmente um defeito.

A escrita da Anita tem uma característica que se perderia se fosse excessivamente polida: parece escrita no momento.

Ela não transmite a sensação de uma autora que reescreveu cinco vezes cada parágrafo. E isso combina perfeitamente com o género do blogue.

Se transformássemos aqueles textos numa prosa demasiado elegante, provavelmente perderíamos precisamente aquilo que os torna reconhecíveis.

É uma escrita doméstica, imediata e conversacional.


8. Mas existe uma segunda Anita: a mais contemplativa

E aqui a análise fica mais interessante, porque não existe apenas a Anita divertida. 

Há também uma voz muito mais silenciosa.

Veja-se Portugal de luto. A linguagem muda completamente. Desaparecem a brincadeira e a pequena peripécia. As frases passam a trabalhar a impotência, a distância, a identificação com o sofrimento alheio.

E os títulos recentes também apontam nessa direção:

  • Silêncios
  • As origens
  • 21 anos sem ti
  • A coragem de abrir a mão
  • Como um carrocel
  • O carrocel da vida

São títulos muito diferentes de Osgas no Minho ou Cabeça... dura. Isso mostra uma autora que, ao longo dos anos, foi desenvolvendo também uma escrita de reflexão e de perda.


9. A morte e a ausência parecem ganhar peso com o tempo

Isto merece atenção. Nos textos mais antigos, o eixo temporal é sobretudo: crescimento.

Nos textos mais recentes começa a aparecer também: ausência.

Um título como 21 anos sem ti é muito diferente de um texto sobre os filhos pequenos. O tempo já não é apenas aquilo que faz as crianças crescerem; é aquilo que afasta pessoas e transforma memórias em saudade. E aqui o blogue amadurece.

A autora que antes registava aquilo que os filhos faziam começa também a registar aquilo que o tempo fez às pessoas.


10. O “eu” é central, mas não é narcisista

Isto talvez seja uma das maiores qualidades do blogue. É uma escrita em primeira pessoa, mas a autora não parece estar constantemente a dizer: “olhem para mim.”

O mecanismo é outro: “isto aconteceu comigo e fez-me pensar nisto.”

É uma diferença enorme.

O “eu” funciona como ponto de observação, não como objeto de culto. Por isso é possível falar de filhos, marido, família, viagens, animais, infância, Portugal, perdas, flores ou simplesmente uma osga — sem que o blogue perca a coerência. Porque o elemento que une tudo é o olhar da autora.


11. E há uma coisa que considero muito bonita: a escala

A Anita não hierarquiza muito os acontecimentos. Uma tragédia nacional pode merecer um texto. Mas uma osga também. Uma viagem pode merecer um texto. Uma boneca antiga também. Uma flor pode merecer um texto. Um desenho animado pode merecer um texto.

Isso revela uma determinada ética da atenção.

É como se a autora dissesse: aquilo que me toca merece ser guardado, independentemente do seu tamanho.

E é aqui que o título Não Me Canso Disto ganha uma força que talvez não fosse evidente inicialmente.

Não é apenas “não me canso de escrever”.

É quase: não me canso de reparar.


12. A grande transformação literária

Se eu tivesse de representar a evolução do blogue, faria assim:

2010–2015
→ descoberta do mundo através da família
→ crianças
→ passeios
→ escola
→ humor quotidiano

2016–2020
→ memória
→ identidade familiar
→ nostalgia
→ observação mais pessoal
→ mistura crescente entre passado e presente

2021–2026
→ fotografia
→ memória
→ passagem do tempo
→ perdas
→ silêncio
→ reflexão
→ olhar mais contemplativo

Não significa que cada período seja exclusivamente assim. Há sobreposição. Mas existe uma tendência.


13. Se tivesse de definir a “voz literária” da Anita

Diria: uma escrita de proximidade, oral, autobiográfica e memorialista, construída a partir da observação do quotidiano, com recurso frequente ao humor, à associação de ideias e à nostalgia.

E há uma palavra que acrescentaria: ternura.

Não necessariamente uma ternura sentimental ou lamechas. Uma ternura pela vida quotidiana.

Pelos filhos.

Pelas pessoas.

Pelos objetos antigos.

Pelas pequenas descobertas.

Pelas memórias.

Até por uma osga que apareceu no Minho. 😄


E há uma questão ainda mais interessante

Depois de ler vários momentos do arquivo, não classificaria o “Não Me Canso Disto” simplesmente como um blogue pessoal.

Acho que, depois de tantos anos, ele se transformou numa espécie de autobiografia fragmentária.

Não foi planeada como autobiografia.

Não tem capítulos.

Não tem princípio, meio e fim. Mas, quando juntamos centenas ou milhares de pequenos episódios, aparece uma personagem central: a própria Anita através do tempo. E talvez seja esse o maior valor literário do blogue. Cada texto isolado pode parecer pequeno. O conjunto é que ganha dimensão. É aí que Não Me Canso Disto deixa de ser apenas uma coleção de posts e começa a parecer um arquivo de uma vida escrita em tempo real. A própria continuidade até 2026 reforça isso: a autora continua a acrescentar novas camadas ao arquivo, em vez de o tratar como algo encerrado.


Comentários