O “Não Me Canso Disto” é mais interessante do que parece à primeira vista.
1. Antes de mais: é um blogue com história
A primeira coisa que me chamou a atenção é a longevidade.
Há registos do blogue pelo menos desde 2010, e o arquivo do Sapo
conserva publicações de muitos anos. A própria estrutura de tags mostra uma
espécie de biografia indireta da autora e da família: idades, anos escolares,
férias, filhos, acontecimentos familiares, etc.
Isto faz com que o blogue seja quase um diário documental
de uma família ao longo de mais de uma década.
E isso muda bastante a forma como eu o leria. Não é apenas
um blogue sobre “coisas do dia a dia”; é um arquivo de memória.
2. A grande personagem é a vida familiar
Há uma característica muito evidente: a família está no
centro, mas não necessariamente de uma maneira confessional.
Nos textos mais antigos aparecem os filhos, chamados
frequentemente de “os príncipes”, trabalhos escolares, passeios, férias,
brincadeiras, desenhos animados, primos, pequenas peripécias domésticas. Por
exemplo, num texto de 2015 sobre uma rosa-dos-ventos, a autora conta como os
gémeos fizeram trabalhos escolares de maneiras completamente diferentes.
E há uma coisa bonita aí: a autora parece ter uma tendência
muito forte para guardar momentos que poderiam desaparecer da memória.
Não precisa de acontecer nada extraordinário.
Uma osga que apareceu no Minho pode transformar-se num post.
Uma boneca de infância pode desencadear uma memória de há décadas. Uma ida a
Aveiro pode ficar registada. Um desenho animado pode ser motivo suficiente para
escrever.
Isso diz muito sobre a essência do blogue.
3. O quotidiano é tratado como matéria literária
Esta é provavelmente a característica que considero mais
interessante.
A Anita tem uma tendência para pegar em coisas pequenas e
transformá-las em histórias.
Um exemplo antigo é particularmente revelador: “Cabeça...
dura”, em que uma simples cabeçada ao sair do carro dá origem a uma pequena
narrativa humorística.
Não há necessidade de construir artificialmente uma grande
história. A graça está na observação.
É quase uma filosofia implícita: a vida acontece nas pequenas coisas e vale a pena reparar nelas.
E acho que o próprio título — Não Me Canso Disto —
acaba por funcionar muito bem nesse sentido.
4. Existe uma evolução muito interessante da autora
Se compararmos textos mais antigos com os de 2026, nota-se
uma mudança.
Nos primeiros anos há muito da mãe com crianças pequenas:
escola, filhos, atividades, passeios, desenhos animados, família.
Com o passar do tempo, os filhos crescem e o blogue
inevitavelmente muda.
A própria lista de tags permite perceber isso de forma quase
cronológica: aparecem idades desde bebés até aos 20 e tal anos, anos
escolares, etapas diferentes da vida, etc.
Portanto, há uma espécie de transformação:
“blogue de uma mãe com filhos” → “blogue de uma mulher
que observa a própria vida e as pessoas à sua volta”.
E isso é importante porque evita que o blogue fique preso à
infância dos filhos.
5. A nostalgia é uma das linhas subterrâneas mais fortes
Não é sempre explícita, mas está lá.
O texto sobre a Tucha, por exemplo, começa com uma conversa
sobre uma boneca e acaba numa recordação da infância da própria Anita: a boneca
que recebeu, as roupas que fazia, o facto de nunca ter conseguido fazer-lhe
sapatos.
É um mecanismo recorrente: acontecimento presente → associação → memória → pequena reflexão.
Isso dá ao blogue uma dimensão temporal interessante.
O passado não aparece apenas como “lembrança”; aparece
constantemente misturado com o presente.
6. Mas não é só um blogue cor-de-rosa
Também há textos de dor e acontecimentos coletivos.
Um bom exemplo é “Portugal de luto”, escrito depois da
tragédia dos incêndios de 2017. Aí desaparece completamente o registo leve e
aparece uma escrita muito mais emocional, baseada na empatia e na impotência
perante o sofrimento dos outros.
Isso mostra outra característica da autora: a escrita
acompanha o estado emocional do momento.
Não parece haver uma personagem construída para o blogue.
Há dias leves, dias engraçados, dias nostálgicos e dias
difíceis.
7. E há uma comunidade à volta dela
Isto é muito importante para compreender o blogue.
O “Não Me Canso Disto” não existe isoladamente. Faz parte
daquela blogosfera portuguesa do Sapo em que os autores visitavam os
blogues uns dos outros, comentavam, criavam relações e acompanhavam a vida uns
dos outros.
Há exemplos muito claros disso nos comentários e nas
referências de outros bloggers. Em 2020, por exemplo, Anita participou num
calendário de Natal de outro blogue, com um texto sobre o Natal da família. A
apresentação descreve-a como uma “super mãe de uma família numerosa”.
Ou seja, o blogue também funciona como ponto de encontro
social.
8. E 2026 é um momento de viragem
Aqui há uma parte particularmente interessante.
Em janeiro de 2026, Anita explicou publicamente que estava a
ponderar sair do Sapo e passar para o Blogspot/Blogger, porque havia alterações
na plataforma e receava perder o conteúdo e as imagens. Disse explicitamente
que o “Não Me Canso Disto” continuava a fazer sentido para ela e que não queria
perder o arquivo.
E acabou por acontecer a mudança: existe atualmente uma
versão Blogspot do blogue, com publicações em 2026.
Isto é revelador.
Porque, perante a possibilidade de o espaço desaparecer, a reação dela não foi simplesmente: “Se acabar, acabou.”
Foi: “Não quero perder o que construí.”
E isso confirma a minha leitura de que o blogue é, para ela,
muito mais do que uma página onde publica textos.
É memória acumulada.

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