Gaudi, o cão

2000, fui com o marido à Junta de Freguesia de Vimieiro, em Braga. Eu fiquei dentro do carro e ele foi fazer o que nos levou lá.


De repente chamou-me para ver um cão tão fofo que andava por ali. Parecia abandonado. Recusei, pois sabia que iria ficar com uma dor no coração quando tivesse que lhe voltar as costas. Mas acabei por sair. O cão era um doce e rapidamente se aproximou de mim. 


O meu marido questionou:


 


"- Queres levá-lo?"


 


Duvidosa, porque na altura vivíamos num apartamento, tomei uma decisão:


 


" - Entro no carro e sento-me. Chamo-o. Se ele vier fica connosco."


 


Entrou no carro e sentou-se aos meus pés. Ficámos com ele. Nunca chorou, nem se mostrou alterado durante a viagem.


Um cão com pelo comprido, pequeno, sem dentes e coxo. O veterinário não conseguiu definir a idade, porque segundo ele os cães de rua por vezes comem pedras e isso dá-lhes cabo dos dentes, por onde muitas vezes identificam a idade dos animais.


Era louca pelo Gaudi. Gaudi foi o nome que lhe decidimos colocar em homenagem a um arquitecto que adoramos, tão famoso em Barcelona.


Fiquei grávida com uma gravidez de risco. Muito tempo passámos só os dois. 


Um dia olho para o Gaudi e tinha um olho enorme, quase fora de órbita. Como não podia sair da cama, liguei ao meu marido. Ele não podia vir, a ida ao veterinário teria que aguardar. Mas eu não esperei, peguei no Gaudi e levei-o ao veterinário de Lamaçães, em Braga, que antes ficava em frente à Caixa Geral de Depósitos. 500 metros para cada lado, para alguém que não deveria sequer sair da cama, quanto mais caminhar.


Foi visto e tratado. Uma conjuntivite.


Em setembro de 2001 comprámos uma casa, já tínhamos 2 gatos e dois cães. Mas a casa era nova e ficar com os cães não era uma opção na altura. Arranjámos alguém que ficasse com eles, mas com a premissa que se algum dia não os pudesse ter que nos deveria contactar primeiro.


Chorei dias, meses, com a dor e o arrependimento tão grande de o ter dado. De poucas coisas me arrependo na vida, mas desta arrependi-me cada segundo.


Passou um ano e contactaram-nos. Não se conseguiam entender com a Bianca e queriam dá-la. Fomos buscar a Bianca. O Gaudi não estava lá, nem tive coragem de perguntar o que lhe aconteceu! 


 


Não me canso disto gaudi.jpg


 


Esta noite lembrei-me do meu Gaudi.  Por isso tomei a decisão de deixar aqui a história do cão que mais me marcou na vida.


 

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